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Resumen
Como manobra de aproximação dos países latino-americanos, o governo dos Estados Unidos, no final do século 19, revive o “panamericanismo”, mas em uma conjuntura de ampliação e defesa de seus interesses geopolíticos — estratégia que muitos autores consideram uma espécie de “repaginação” da Doutrina Monroe. Sob sua iniciativa e influência direta, foi realizada em Washington, em 1889, a Primeira Conferência Internacional Americana. Entre as decisões finais, estava a recomendação de implantar uma ferrovia intercontinental para melhorar o relacionamento entre os povos do continente americano. Entretanto, a partir da Quinta Conferência Internacional Americana, de 1923, realizada em Santiago, a ideia da ferrovia foi sendo gradativamente substituída pelo conceito de “rodovia Panamericana” (ou carretera Panamericana). Neste contexto, este trabalho procura abordar os interesses por trás dessa empreitada hercúlea, que visava conectar os Estados Unidos ao sul do continente. Também, examinar a reação brasileira a esse fenômeno, em um contexto no qual o rodoviarismo estava ganhando musculatura em termos políticos, adentrando gradativamente o imaginário coletivo de parte da população brasileira. Esse processo resultava na ampliação da capilaridade territorial e no fortalecimento de sua base econômica, tornando-se, assim, uma das expressões mais relevantes para o processo de urbanização e industrialização que seria alavancado com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, em 1930. Levantamos a hipótese de que a propagação da ideia de uma ligação rodoviária das Américas na primeira metade do século 20, sintetizada ao longo das resoluções acatadas em congressos Panamericanos de Estradas de Rodagem, fazia parte de uma estratégia maior, de cunho geopolítico e econômico, arquitetada pelo governo dos Estados Unidos em um momento de euforia rodoviarista no Brasil e em grande parte dos países latino-americanos, realçada com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1938-1945). E, ao longo da Guerra Fria, o projeto foi impulsionado, mas embalado por novos interesses em uma conjuntura delicada à hegemonia global estadunidense. O fato é que a rodovia nunca foi finalizada em sua totalidade, abortando a ideia originalmente proposta.
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