
LA TADEO DEARTE 9 N.º 12 - 2023
CRIATIVIDADE ALGORÍTMICA?
N sentido comparar o
processo criativo humano com o que quer que esteja
acontecendo em algoritmos, criativos ou não. São
processos e resultados absolutamente diferentes. O pri-
meiro evoluiu durante milhões de anos em organismos
biológicos. O outro é construído a partir de abstrações
matemáticas e executado em chips de silício há apenas
alguns anos.
Tecnologias disruptivas costumam trazer tanto
um lado fascinante e libertador quanto outro terrível,
opressor. É fácil perceber essa dualidade na tecnologia
nuclear, por exemplo, que permite tanto o escane-
amento de precisão para diagnósticos médicos que
salvam vidas como os horrores das bombas nucleares.
Tecnologias mais antigas, como a escrita e a imprensa,
além de todos os benefícios evidentes para a humani-
dade, também foram historicamente empregadas como
meios de controle e opressão. Não seria razoável supor
que com a inteligência artificial fosse diferente.
Manifestos de alerta, assinados por especialis-
tas, têm sido frequentes. Cito duas cartas abertas:
“Research Priorities for Robust and Beneficial Artificial
Intelligence: An Open Letter”1, de 2015, e “Pause Giant
AI Experiments: An Open Letter”2, de 2023. A primei-
ra alertava, oito anos atrás, sobre a importância de
estabelecer prioridades para que o desenvolvimento da
inteligência artificial fosse benéfico, evitando possíveis
perigos. A segunda é mais urgente e cita, entre outros,
o risco de perdermos o controle de nossa civilização,
propondo uma pausa nos grandes experimentos de
inteligência artificial para que regras de segurança pos-
sam ser estabelecidas. Os alertas foram assinados por
centenas de especialistas, incluindo Stephen Hawking,
Steve Wozniak, Yuval Noah Harari e Stuart Russell.
É preciso levar a sério esses alertas. Por mais
diferentes e não humanas que sejam, é inevitável que
as chamadas “inteligências artificiais generativas”
dividam espaços antes ocupados apenas por seres hu-
manos, espaços de criação, de produção de conteúdo,
de planejamento. Isso já acontece, mesmo nos estágios
tão iniciais em que esses algoritmos se encontram.
Parece inevitável, também, que grande parte dessa tec-
nologia permaneça a serviço das instituições que hoje a
desenvolvem, gerando aplicações voltadas para o lucro
de megacorporações ou para a eficiência sobre-huma-
na no campo militar.
Mas há também possibilidades fascinantes para
o nosso futuro. É perturbador pensar que algoritmos
possam vir a ser bem-sucedidos em áreas que exigem
intuição e criatividade, mas é bem possível que eles
transcendam algumas limitações humanas nessas áre-
as. Enquanto tecnologias mais antigas aprimoraram a
força e a habilidade físicas dos seres humanos e outras,
mais recentes, elevaram nossas capacidades analíti-
cas, a inteligência artificial pode vir a permitir níveis de
cognição nem sequer imaginados. Nesse sentido, essa
nova tecnologia estará apenas expandindo as capa-
cidades humanas, como tantas outras já o fizeram no
passado. A diferença está no fato de que a inteligência
artificial generativa atua numa área que era considera-
da, até há poucos anos, exclusivamente humana. Mas o
princípio é o mesmo.
Há indicações de que novas teorias da física pode-
rão vir a ser desenvolvidas — ou que, pelo menos, terão
seu desenvolvimento facilitado — por algoritmos desse
tipo4. Outras aplicações da inteligência artificial — des-
de o diagnóstico médico, a busca por planetas extras-
solares e até mesmo o desenvolvimento de programas
de computador inovadores — também já existem e
estão em contínuo desenvolvimento. O potencial de
novas descobertas, auxiliadas por algoritmos, promete
ampliar o conhecimento humano de maneira muito
rápida e difícil de prever.
Enfim, intuição, criatividade e busca por conheci-
mento sempre foram características humanas. Parece
apropriado que essas características se expandam com
a ajuda de nossas próprias tecnologias. Se tivermos
consciência dos riscos desse processo, talvez os benefí-
cios possam levar a humanidade a uma nova era. Uma
era, talvez, de maior consciência sobre o que significa,
realmente, ser humano.
FUTURO