
TIEMPO & ECONOMÍA
Vol. 13 N.° 1 | Enero – Junio del 2026
O comércio de abastecimento e a dualidade estrutural da economia
dependente brasileira: o problema do suprimento das carnes verdes para a
cidade do Rio de Janeiro até o final da Primeira República
Edite Moraes da Costa, Pedro Henrique Pedreira Campos
1 A famosa citação de seu livro é a seguinte: “Colocada a ideia de complexo, que dentre seus componentes conta com uma a=vidade que é a principal e
predominante, como a do café, cumpre em seguida apresentar os componentes do complexo cafeeiro bem como mencionar algumas das principais
variáveis, que sobre ele atuam. Destaco, entre seus principais componentes:
- a a=vidade produtora do café;
- a agricultura produtora de alimentos e matérias-primas, vista em dois segmentos: o primeiro, representado pela produção desenvolvida dentro da área da
propriedade cafeeira, quer como cul=vos intercalados, quer como produção elaborada em terras cedidas pelo proprietário aos trabalhadores do café;
o segundo, pela agricultura que produz essencialmente para o mercado, operando fora da propriedade cafeeira;
- a a=vidade industrial, que, em função do objeto de análise, deve ser vista também, em pelo menos três segmentos: um, representado pela produção de
equipamentos de beneficiamento de café; outro, pela importante indústria de sacarias de juta para a embalagem do café, e o terceiro, representando
os demais compar=mentos produ=vos da indústria manufatureira, entre os quais, notoriamente se destaca o têx=l;
- a implantação e desenvolvimento do sistema ferroviário paulista;
- a expansão do sistema bancário;
- a a=vidade do comércio de exportação e de importação;
- o desenvolvimento de a=vidades criadoras de infraestrutura — portos e armazéns, transportes urbanos e comunicações — bem como daquelas inerentes
à própria urbanização, como o comércio, por exemplo;
- finalmente, a a=vidade do Estado, tanto do governo federal como do estadual, principalmente pela ó=ca do gasto público” (Cano, 2007 [1977], pp. 28-29).
além de denúncias em relação à sua contaminação e à venda de órgãos e
partes de animais adoecidos.
No entanto, nem todos os segmentos da economia brasileira
operavam nos termos verificados no comércio de abastecimento, em
particular o das carnes verdes. Havia setores que tinham por característica
expansão, melhoramento, uso de técnicas avançadas e dinamismo na
cadeia produtiva e comercial. Assim, Wilson Cano desenvolveu,
originalmente em 1977, um estudo clássico acerca da espiral virtuosa
gerada pela produção, transporte, beneficiamento e escoamento da
produção de café, sobretudo no estado de São Paulo, durante a Primeira
República. O conceito concebido por Wilson Cano busca compreender as
origens das desigualdades regionais no Brasil1. O autor pretende entender
por que São Paulo é o estado mais rico da federação e o motivo pelo qual
ele se tornou o principal polo industrial do país. Nesse sentido, ele formulou
o conceito de “complexo cafeeiro”, que aponta justamente para a
importância que a economia cafeeira teve para o desenvolvimento das
fábricas a partir da Primeira República, ao fornecer capital e um conjunto
de atividades econômicas que acabaram impulsionando a formação
industrial de São Paulo, fazendo com que o estado liderasse a produção
fabril no país já a partir da década de 1920.
Em contraste com a economia do abastecimento, que tinha um perfil
subsidiário e com problemas permanentes de escassez, carestia e
qualidade, a economia no entorno da produção e escoamento do café
compreendia o setor dinâmico da economia brasileira no período, dispondo